34º Festival de Curitiba: Mostra Surda amplia o protagonismo da cultura em Libras

 


Pelo terceiro ano consecutivo, a Mostra Surda de Teatro integra a programação do 34º Festival de Curitiba, consolidando-se como um dos espaços mais importantes dedicados à produção artística em Libras no país. A mostra será realizada de 3 a 5 de abril, na Capela Santa Maria, reunindo oito espetáculos e duas oficinas, com participação de artistas de Curitiba, Salvador, Fortaleza, Brasília e São Paulo. 

Todos os espetáculos e atividades da Mostra Surda são gratuitos, com ingressos distribuídos uma hora antes de cada apresentação, por ordem de chegada. A programação deste ano inclui três estreias nacionais, além de atividades formativas voltadas à circulação de saberes da cultura surda. Entre elas está a oficina Como Contar Histórias para Crianças Surdas, dedicada a educadores, artistas e interessados na relação entre arte, linguagem e infância.

Criada para ampliar o espaço de circulação da arte em Libras dentro do evento, a Mostra Surda reafirma o compromisso do Festival de Curitiba com a diversidade estética, linguística e cultural nas artes desta cena.

Para Fabíula Passini, diretora do festival, a continuidade da mostra demonstra o amadurecimento de uma iniciativa que já se tornou uma parte importante da programação. “A Mostra Surda reafirma o compromisso do festival com a diversidade de linguagens e com a valorização da produção artística da comunidade surda. Além de ampliar o acesso, ela coloca em evidência artistas, estéticas e formas de criação que ampliam o próprio entendimento do que é o teatro contemporâneo”, afirma

Na edição anterior, realizada no Teatro Sesc da Esquina, a mostra reuniu mais de 1.500 espectadores, com participação de artistas e público surdo de diferentes regiões do Brasil e da América do Sul. Em 2026, a atração ganha também um novo espaço dentro da programação do festival: a Capela Santa Maria, tradicional sala de concertos e apresentações artísticas no centro de Curitiba. A mudança amplia as possibilidades de encontro entre artistas e público e reforça a presença da mostra na programação oficial do Festival.

A curadoria é novamente assinada pelo diretor e intérprete de Libras Jonatas Medeiros e pela artista surda e diretora Rafaela Hoebel, e parte da ideia de que o teatro surdo contemporâneo constitui um campo estético próprio, no qual corpo, gesto e visualidade estruturam novas formas de dramaturgia.

Segundo os curadores, a mostra busca apresentar obras que colocam a autoria surda no centro do processo criativo, explorando a potência expressiva da língua de sinais e das performatividades visuais. “A cena surda contemporânea é um território de pensamento. O corpo que sinaliza produz conhecimento, estética e filosofia. A Mostra Surda reúne trabalhos que mostram como a Libras pode organizar o espaço cênico, produzir dramaturgia e expandir os limites da própria linguagem teatral”, afirma Hoebel.

Nesta edição, o recorte privilegia performances autorais, solos e experimentações cênicas que transitam entre teatro, performance, poesia sinalizada, dança e contação de histórias. Os espetáculos selecionados investigam a relação entre corpo, visualidade e linguagem, apresentando diferentes caminhos da produção artística surda contemporânea. “Essas obras revelam um campo artístico que não deriva do teatro ouvinte, mas propõe outra temporalidade, outro modo de percepção e outras formas de construir narrativa. É uma dramaturgia visual que amplia o horizonte do que entendemos como artes da cena”, destaca Medeiros.

A curadoria também destaca o olhar para o público infantil, reafirmando a importância do acesso à cultura na língua natural da comunidade surda. Garantir que crianças surdas tenham acesso à arte em sua própria língua é parte essencial da formação cultural e da construção de identidade. “Quando a criança surda encontra no palco artistas que compartilham sua língua e sua experiência de mundo, ela reconhece ali um espaço de pertencimento. O teatro se torna também um território de afirmação identitária”, afirmam os curadores.


Mais acessível

Um diferencial importante desta edição é o fortalecimento das políticas de acessibilidade voltadas também à comunidade surdocega, um público historicamente pouco contemplado nas programações culturais. Durante toda a Mostra Surda, haverá uma equipe de guia-intérpretes presente na Capela, garantindo a mediação em língua de sinais tátil para pessoas surdocegas. 

Essa preocupação também se estende à comunicação do evento. Toda a divulgação da Mostra Surda foi pensada para contemplar pessoas com baixa visão e pessoas surdocegas, com materiais gráficos produzidos tanto em versões coloridas quanto em baixo contraste, além de adaptações em vídeos e conteúdos digitais. A proposta é ampliar o alcance da informação e fortalecer a formação de público surdocego, um trabalho que já vinha sendo desenvolvido em edições anteriores, mas que em 2026 ganha maior estrutura e abrangência.

A mostra também se destaca por promover a empregabilidade dentro da própria comunidade surda. A equipe é majoritariamente composta por profissionais surdos, que atuam em diferentes etapas da produção — da direção e curadoria à produção executiva e às apresentações artísticas. 

Além das apresentações, a Mostra Surda também participa da programação do Interlocuções, eixo dedicado a debates e reflexões sobre as artes da cena. Nesta edição, será realizado um bate-papo sobre meios de produção cultural no teatro surdo, reunindo artistas participantes da mostra para discutir formas de financiamento, acesso a editais, políticas públicas e estratégias de produção. Entre os temas abordados estão o impacto de iniciativas como a Lei Paulo Gustavo, a aplicação de cotas para artistas surdos em editais culturais e os diferentes modelos de produção — independentes ou em parceria com profissionais ouvintes.


Serviço:

Mostra Surda de Teatro

Capela Santa Maria (Rua Conselheiro Laurindo, 267  Centro)

De 3 a 5 de abril

Ingressos gratuitos, distribuídos uma hora antes de cada apresentação.


Programação

3 de abril

14h30 – Oficina Como Contar Histórias para Crianças Surdas (Fortaleza-CE)

20h – Sopro de Liberdade (Brasília-DF)

4 de abril

11h – Cangaceira Surda Mara (foto, Fortaleza (CE)

16h – Voz Invisível (São Paulo-SP)

17h – Oficina Vibra Dança (Salvador-BA)

5 de abril

11h30 – Gralha Azul Pinhão (Curitiba-PR)

15h – Slam Resistência Surda (Curitiba-PR)

19h – Encruzilhada (Salvador-BA)


34º Festival de Curitiba

De 30 de março até 12 de abril.

Ingressos: www.festivaldecuritiba.com.br e na bilheteria física exclusiva no Shopping Mueller (ao lado da entrada da Rua Mateus Leme; segunda-feira a sábado, das 10h às 22h; domingos e feriados, das 14h às 20h).

Valores:

Mostra Lucia Camargo – a partir de R$ 42,50 + taxas

Risorama – a partir de R$ 42,50 + taxas 

Fringe – de gratuitos até R$ 75 + taxas

Mostra Surda de Teatro – gratuita

MishMash – a partir de R$ 30 + taxas

Programa Guritiba – de gratuitos até R$ 60 + taxas

Gastronomix – a partir de R$ 10 + taxas

*Estudantes de teatro e artistas profissionais contam com ingressos promocionais de R$ 40 e R$ 20, somente na bilheteria física. Verifique as condições especiais para colaboradores de empresas apoiadoras e clubes de descontos.

Verifique a classificação indicativa e orientações de cada espetáculo.

Confira também todos os espetáculos que contam com acessibilidade em Audiodescrição e intérpretes de Libras.


Crédito da foto: Divulgação