Kokuho – O Preço da Perfeição revela a arte do kabuki – FILMES, por Rudney Flores


 

O kabuki, a mais popular das artes dramáticas tradicionais do Japão e considerado Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, é o tema central de Kokuho – O Preço da Perfeição, do diretor Lee Sang-il, que estreia esta semana em Curitiba com uma sessão apenas no Cine Guarani. A produção é baseada no romance homônimo de Shuichi Yoshida, sendo a terceira adaptação que o cineasta japonês faz do mesmo escritor, depois de Vilão (2010) e Fúria (2016).

O filme, que foi lançado em 2025 na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes, foi indicado ao Oscar deste ano na categoria melhor maquiagem e penteado. E também foi o título selecionado pelo Japão para tentar a indicação a melhor filme internacional, entrando na lista de pré-seleção de 15 títulos, mas não conseguindo ser finalista da categoria, que conta com o brasileiro O Agente Secreto.

Antes de entrar na produção, vale uma ambientação sobre o kabuki, arte criada no início do século 17, no Japão, destacando atrizes que faziam performances que misturavam dança, teatralidade e provocação. Após alguns anos de sucesso, o xogunato que controlava o país na época proibiu que mulheres se apresentassem no kabuki, e homens passaram a interpretar os papéis femininos. Surgia assim o onnagata, o ator especializado em interpretar mulheres de maneira rigorosa e estilizada. Com o tempo, esses intérpretes se tornaram muito respeitados e populares no Japão. Já kokuho é um termo que significa tesouro nacional, denominação dada pelo governo japonês a propriedades culturais que têm grande valor histórico ou artístico.

Em suas três horas de duração, Kokuho apresenta cinco décadas, de 1964 até 2014, da vida do personagem Kikuo Tachibana (Ryô Yoshizawa, na fase adulta). Filho do líder da Yakuza, a máfia japonesa, na cidade de Nagasaki, ainda jovem ele é descoberto pelo grande onnagata Hanjiro Hanai (Ken Watanabe, de A Origem), depois de uma apresentação familiar. Após ao assassinato do pai, Tachibana busca vingá-lo como manda a tradição japonesa, e na sequência vai ser aluno do mestre Hanai para se especializar no kabuki.

Ao seu lado nos treinamentos está Shunsuke Ogaki (Ryûsei Yokohama, na fase adulta), filho de Hanjiro e herdeiro natural para seguir o legado do pai no kabuki, seguindo novamente uma tradição do país asiático. Mas Tachibana tem um talento mais do que especial, aprimorado pela mentoria do mestre, que em determinado momento o escolhe para substituí-lo. Mas por se opor à tradição esse será um caminho de muitos percalços para Tachibana, que passará por muitos problemas, quedas e superações na vida para chegar à perfeição na sua arte.

Kokuho impressiona principalmente pelas belas representações das peças do kabuki, com grande riqueza de detalhes, colocando em foco a poesia visual das obras – cada novo espetáculo tem seu título e trama descritos na tela, para facilitar o entendimento do espectador. Não há pressa em mostrar e detalhar a tradicional arte, e partes extensas de algumas peças são apresentadas.

Lee Sang-il também assina o roteiro e apresenta uma trama bem construída, fazendo com que a longa duração do filme não seja cansativa para o espectador, que tem a oportunidade de descobrir e apreciar uma importante manifestação artística japonesa, pouco conhecida no mundo ocidental.

Outro destaque da produção são as atuações do elenco, com trabalhos primorosos de Yoshizawa e Yokohama, que interpretam os protagonistas na fase adulta e revelam com precisão o quão árduo é trabalho dos omnagatas para chegar à perfeição na intepretação, e também de Watanabe, que mais uma vez reafirma seu prestígio como um dos principais atores japoneses da história. Cotação: Ótimo.

 

Trailer de Kokuho – O Preço da Perfeição:

 


 

 

Crédito da foto: Divulgação Sato Company