Espetáculo Ideias para Adiar o Fim do Mundo tem temporada na Caixa Cultural

 


A partir desta quinta-feira (24), o teatro da Caixa Cultural Curitiba recebe o espetáculo Ideias para Adiar o Fim do Mundo, inspirado na obra de mesmo nome de Ailton Krenak, que articula arte, memória e urgências contemporâneas. A temporada segue até 4 de outubro, com sessões de quinta-feira a sábado, sempre às 20 horas, e nos domingos, às 19 horas. Os ingressos estão à venda na bilheteria do espaço e nos site Bilheteria Digital.

Com direção de João Bernardo Caldeira e atuação de Yumo Apurinã, a montagem acompanha a trajetória de um homem indígena que busca reconstruir os vínculos com sua ancestralidade após ter sido evangelizado na infância. Em cena, Yumo interpreta a si mesmo e conduz o público por uma jornada que entrelaça memória pessoal e questões que atravessam os povos indígenas no Brasil. “Somos mesmo uma humanidade?”, essa é a pergunta que Apurinã faz no palco. Homem do povo Apurinã que foi evangelizado na infância, ele tenta reconstruir sua relação com a ancestralidade.

Líder indígena, ambientalista e escritor do povo Krenak, Ailton Krenak é imortal da Academia Brasileira de Letras e da Academia Mineira de Letras. Em 1987, durante a Assembleia Nacional Constituinte, que elaboraria a Constituição Federal de 1988, protagonizou uma das cenas mais marcantes da história brasileira ao pintar o rosto de preto, na tribuna, em protesto contra retrocessos nos direitos indígenas. A Constituição de 1988 representou uma mudança fundamental ao reconhecer os direitos originários dos povos indígenas, rompendo com uma política de tutela, apagamento de suas culturas e integração forçada à sociedade nacional.

“A presença de Ailton Krenak na Assembleia Constituinte é um momento fundamental do espetáculo, porque ali não estava em disputa apenas um conjunto de direitos, mas a própria possibilidade de os povos indígenas continuarem existindo enquanto povos indígenas. O indígena era pensado como alguém que, em algum momento, deveria deixar de sê-lo para integrar plenamente a sociedade nacional”, comenta Caldeira. “A peça destaca a violência fundadora do Estado brasileiro, marcada pela distinção entre corpos considerados civilizados e aqueles historicamente destinados ao apagamento, à expropriação e à morte”, completa.

A própria trajetória de Yumo Apurinã atravessa o espetáculo e expõe estereótipos que ainda recaem sobre os povos indígenas. “Você é índio de verdade? Come carne de macaco? Por que não está na sua aldeia? Essas são algumas das perguntas que acabo lidando diariamente", lembra o ator.  "Parece que, ao longo dos anos, desde quando eu vim pra cidade, as pessoas não indígenas me veem com uma lupa, assim, de verificação, de validação. De até que ponto eu sou indígena ou não, se eu mereço estar aqui, se eu devo estar aqui. E talvez, com essa peça e com outras peças em que outras pessoas indígenas são protagonistas das nossas histórias, essa lupa possa ser tirada”, confirma.

Ao refletir sobre o pensamento que inspira o espetáculo, Yumo aproxima a trajetória de Krenak de sua própria experiência. “Quando se fala do pensamento do Ailton Krenak eu sempre o enxergo como um porta-voz, como uma ponte de muitos seres e de muitas histórias. Isso parte desde o povo Krenak, claro, mas também passa pelas montanhas, pelos rios, por outros povos, por outros territórios, por outros modos de pensar e de existir", afirma. "Então, eu não coloco esse peso somente nele. Até porque ele mesmo fala que nós andamos em constelações, que nós não andamos sozinhos. E eu acho que, de alguma maneira, isso também acontece comigo. Eu sou feito de muitas histórias, de muitas pessoas, de muitos seres e de muitos territórios”, complementa.

A peça ainda aborda a crise climática e a conexão com a natureza. “Queremos convidar o público a ampliar seus campos sensoriais e procurar experimentar outras maneiras de perceber aquilo que está à sua volta. Talvez reflorestar nossos imaginários seja também recuperar nossa capacidade de nos espantarmos com o mundo e, a partir daí, inventar outras formas de habitá-lo”, diz o diretor. “O teatro pode nomear e preencher ideias que estão se esvaziando, como ‘crise climática’ e ‘colonização’, até perdermos a relação com essas catástrofes. Não há floresta sem os povos que nela habitam”, finaliza.


Serviço:

Ideias para Adiar o Fim do Mundo

Caixa Cultural Curitiba Rua Conselheiro Laurindo, 280 Centro)

De 24 de setembro a 4 de outubro; quinta-feira a sábado, às 20h; domingo, às 19h; sessões com intérprete de Libras nos dia 25 de setembro e 3 de outubro.

Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (clientes Caixa e casos previstos em lei), à venda na bilheteria do espaço e em www.bilheteriadigital.com/teatrocaixacuritiba

Classificação indicativa: 12 anos


Crédito da foto: Natália Tupi