Épico O Brutalista debate arte e poder – FILMES, por Rudney Flores

 


 Conhecido pela atuação em filmes como Melancolia e a refilmagem hollywoodiana que o diretor Michael Haneke fez de seu visceral Violência Gratuita, o ator Brady Cobert passou para atrás das câmeras em 2015, estreando na direção de longas-metragens com A Infância de um Líder, e realizando depois Vox Lux – O Preço da Fama (2018).

Essas produções não tiveram grande repercussão, ao contrário de O Brutalista, seu terceiro filme, que estreia nesta quinta-feira (20) nas salas brasileiras e que concorre a dez Oscars na cerimônia da Academia de Hollywood, no próximo dia 2 de março: melhor filme, diretor, ator (Adrien Brody), atriz coadjuvante (Felicity Jones), ator coadjuvante (Guy Pearce), roteiro original, fotografia, edição, design de produção e trilha sonora. A produção recebeu recentemente três prêmios Globos de Ouro (melhor filme de drama, diretor e ator para Brody) e três prêmios Bafta (melhor diretor, fotografia e trilha sonora)

O épico de 3h34min chega ao público brasileiro em sessões programadas com 15 minutos de intervalo (cronometrados na tela), algo que não era realizado há muito tempo na programação do país. Para a audiência que não tem conhecimento do termo, vale salientar que o brutalismo se refere ao movimento arquitetônico que teve início no pós-Segunda Guerra Mundial, com estética ousada, caracterizada pelo uso de concreto bruto e aparente.

O Brutalista traz como personagem central o fictício arquiteto húngaro László Tóth (Brody, Oscar de melhor ator por O Pianista), que chega aos Estados Unidos no ano de 1947, fugindo da destruída Europa após o maior conflito armado do século 20. Judeu, ele deixou no Velho Continente a esposa Erzsébet (Jones, de A Teoria de Tudo), a quem não encontrou mais depois de serem enviados a campos de concentração diferentes pelos nazistas.

László é recepcionado pelo primo Attila (Alessandro Nivola, de O Quarto ao Lado), já instalado na América, casado e com um próspero negócio de fabricação de móveis. O arquiteto passa a trabalhar com o familiar e, em pouco tempo, ao realizar a reforma de uma biblioteca de uma abastada família norte-americana, terá um encontro que mudará sua vida, conhecendo o poderoso Harrison Lee Van Buren (Guy Pearce, de Los Angeles – Cidade Proibida). O magnata irá contratar o arquiteto para projetar e construir um centro monumental em sua propriedade, uma pretensa homenagem a sua mãe, mas na realidade a si mesmo.

Não será uma trajetória fácil e, em quase duas décadas, László, além de Erzsébet e a sobrinha Zsófia (Raffey Cassidy, de O Sacrifício do Cervo Sagrado), que também chegam aos Estados Unidos, irão passar por muitas dificuldades em um lugar com pessoas que lhes são hostis e não hesitam em demonstrar isso, ficando muito distante do tão decantado “sonho americano”.

Cobert, também responsável pelo roteiro ao lado de Mona Fastvold, não tem pressa em desenvolver sua história, que envolve algumas discussões, como a da arte através da arquitetura (e, também do cinema, na representação do próprio filme), as relações de poder entre ricos e pobres, as agruras de imigrantes onde não são desejados (que pode até trazer um paralelo com os Estados Unidos no momento).

Adrien Brody – um dos favoritos ao Oscar de sua categoria, ao lado de Timothée Chalamet, de Um Completo Desconhecido – domina a tela com uma atuação de destaque do trágico László, aproveitando muito bem o personagem mais resolvido da trama, que vai aos poucos revelando suas várias nuances, do artista e ao frio marido no tratamento da esposa, passando pelo viciado em drogas também. Mas Erzsébet merecia um desenvolvimento melhor, com mais tempo na produção.

O tom é mesmo de épico, com longas e bonitas tomadas – principalmente na construção do monumento central e as ideias ousadas do protagonista. Mas Cobert também se mostra pretensioso em sua tentativa de grandiosidade do filme, tornando-o vazio em certos momentos, além de trazer à história um momento chocante não necessário e nada sutil.

O Brutalista também passou por momentos polêmicos nas últimas semanas, quando foi revelado o uso de inteligência artificial para ajustar os sotaques húngaros falados por Adrien Brody e Felicity Jones, para parecerem mais próximos do real, e também na realização de alguns desenhos arquitetônicos para ajudar em uma sequência no final do filme, essa justificada pelo baixo orçamento da produção. Resta conferir se isso irá atrapalhar as pretensões da produção no Oscar. Cotação: Bom.

 

Trailer de O Brutalista:

 


 

Crédito da foto: Divulgação Universal Pictures Brasil