Uma parte pouco conhecida da trajetória de João Turin (1878–1949) poderá ser apreciada com a exposição inédita As Correspondências Perdidas de João Turin, que abre ao público nesta terça-feira (12), no Teatro Cleon Jacques, no Memorial Paranista, localizado no Parque São Lourenço. A entrada é gratuita.
Por meio de imagens projetadas, dispositivos sonoros e vitrines, a mostra reúne cartas, documentos e fotos da fase parisiense de João Turin, encontrados recentemente e que agora são apresentados ao público. O material presente na exposição não tem previsão de publicação, o que torna a visita uma oportunidade única. A mostra é realizada pelo Acervo João Turin, com curadoria de Rafaela Tasca e Cecilia Bergamo, e apoio do Instituto Curitiba de Arte e Cultura (Icac) e da Prefeitura de Curitiba.
Reconhecido como um dos principais escultores do Brasil, Turin viveu mais de uma década na Europa em um momento de intensa efervescência artística. Anos depois de se formar na Academia Real de Belas Artes de Bruxelas (Bélgica),instalou-se no bairro Montparnasse, em Paris, onde manteve um ateliê que se tornaria ponto de encontro e circulação de ideias entre artistas de diferentes origens.
Ora remetente, ora destinatário, o ateliê nº 20, situado na Rue Vercingétorix 52, foi um espaço por onde transitaram nomes referenciais do início do século 20, como Anita Malfatti, Victor Brecheret e Zaco Paraná, passando a construir uma rede viva de interlocuções artísticas. É justamente esse ambiente que a exposição busca revelar, a partir das correspondências trocadas ao longo dos anos.
As cartas evidenciam não apenas aspectos biográficos, mas também uma rede de relações que aproxima Turin com alguns dos nomes mais importantes na arte brasileira, como Malfatti e Brecheret que, posteriormente, chegaram a ocupar o mesmo ateliê do escultor na capital francesa. Esse dado reforça a inserção do artista em um contexto que dialogava diretamente com as transformações estéticas que dariam origem ao modernismo.
“As cartas evidenciam que Turin não estava à margem, mas integrado ao circuito artístico de sua época. Seu ateliê em Montparnasse o insere em um circuito ativo de artistas internacionais que ali orbitavam”, destaca Rafaela Tasca. “As relações estabelecidas no ateliê extrapolam o período de permanência de Turin em Paris, uma vez que a guarda de suas obras por novos e ilustres inquilinos o coloca em diálogo com figuras centrais do modernismo brasileiro, como Victor Brecheret e Anita Malfatti”, completa.
A exposição também destaca o papel simbólico desse espaço. “No início do século 20, Montparnasse era o coração pulsante das artes e das letras em Paris e, por extensão, do mundo”, diz a curadora. Ela lembra ainda que José Roberto Teixeira Leite, em sua pesquisa sobre a vida e a obra de Turin, revela um pouco da mise-en-scène desse ambiente: "(...) sucediam-se os ateliês, alguns com pés-direitos elevados, o que os tornava particularmente adequados à escultura (...). Só para dar ideia dos grandes escultores que João Turin teve por vizinhos em Montparnasse, ao tempo em que ali viveu, entre 1914 e 1922, basta citar o próprio Auguste Rodin, cujo ateliê funcionou na Rue Varenne, desde 1908 até sua morte, em 1917”.
Para Samuel Ferrari Lago, gestor do acervo, o conjunto documental amplia a compreensão da trajetória do artista. “Essas cartas são extremamente importantes porque permitem compreender melhor a inserção de Turin no circuito artístico e reforçam a dimensão de sua trajetória", afirma.
Já se sabia que, durante sua permanência na França, ele foi contemporâneo de grandes nomes que circulavam pelo ambiente artístico daquele país no início do século 20, como Picasso, Modigliani, Soutine, Gris, Brâncusi, Man Ray e Tarsila do Amaral. "A descoberta dessas correspondências ajuda a situar João Turin de forma mais precisa no tempo e no espaço, ao lado de nomes como Victor Brecheret e Anita Malfatti, que herdaram seu ateliê na França, na mesma época. É importante ter essa perspectiva do Turin junto a essas pessoas, mostrando sua grandeza”, confirma.
Além do valor histórico, a mostra propõe uma experiência imersiva, por meio de projeções de imagens, exibição de documentos originais e recursos sonoros que permitem ao visitante ouvir trechos das correspondências, aproximando o público das vozes e das relações que marcaram o período.
“Esta exposição integra o conjunto de ações do Memorial Paranista destinadas a celebrar um dos maiores expoentes da nossa arte. Ao ampliar o acesso ao pensamento, aos processos criativos e às relações do artista, a mostra oferece ao público a oportunidade de compreender, de forma mais profunda, a verdadeira dimensão de seu legado”, afirma Marino Galvão Júnior, presidente da Fundação Cultural de Curitiba.
Serviço:
Exposição As Correspondências Perdidas de João Turin
Memorial Paranista – Teatro Cleon Jacques (Av. Mateus Leme, 4.700 – São Lourenço)
De 12 de maio a 7 de junho.
Visitação: terça-feira a domingo, das 10h às 18h
Classificação: livre
Entrada gratuita.

Redes Sociais