Torre do MON destaca a exposição Poéticas da Memória e da Matéria na Bienal de Curitiba



A monumental instalação de Chiharu Shiota no Olho costuma ser o clímax do impacto da 16ª Bienal Internacional de Curitiba junto ao público. Mas basta aceitar o convite para subir pelas escadas os três pavimentos da Torre do Museu Oscar Niemeyer (MON) para descobrir outro núcleo expositivo igualmente potente, construído a partir de gestos delicados, memórias afetivas e materiais carregados de significado.

A exposição Poéticas da Memória e da Matéria, com curadoria de Tereza de Arruda, reúne seis artistas brasileiros cujas obras estabelecem um diálogo sensível com o universo poético da artista japonesa. Em vez de fios que ocupam o espaço monumentalmente em 9 metros de altura, surgem tecidos, couro, mapas, desenhos, costuras, bordados e objetos cotidianos que transformam a matéria em um arquivo vivo de experiências humanas.

"O núcleo propõe o espaço expositivo como um campo relacional, onde objetos, superfícies e espacialidade tornam-se portadores de memória e experiência sensível", afirma Arruda. "Reunidos, esses artistas fazem da matéria um arquivo vivo, onde memória e transformação permanecem em contínuo estado de travessia", completa.

A visita começa no térreo com o goiano Luiz Mauro, que apresenta a série inédita "Romaria". Couros marcados a ferro, chifres, cordas e pinturas com folha de ouro aproximam elementos da cultura popular brasileira de narrativas autobiográficas sobre pertencimento, deslocamento e memória familiar. Ainda no mesmo pavimento, Marina Camargo transforma mapas em esculturas flexíveis e pinturas que deixam de representar lugares para sugerir deslocamentos, fluxos e experiências vividas. Na pesquisa da alagoana, a cartografia torna-se matéria sensível, enquanto borracha e látex evocam também a história da exploração dos recursos naturais brasileiros.

No primeiro pavimento, André Azevedo, curitibano radicado em São Paulo, investiga o tecido como linguagem. Utilizando máquinas de escrever e de costura como ferramentas complementares, cria instalações e trabalhos que aproximam memória analógica e cultura digital, explorando repetição, transmissão e entrelaçamento como formas de construir conhecimento. Em diálogo com essa reflexão, o paulista James Kudo transforma moldes, linhas e tecidos em grandes pinturas que evocam autobiografia, presença e ausência, convertendo a costura em uma escrita visual sobre o tempo.

A subida continua até o segundo pavimento, onde Evandro Soares, da Bahia, expande o desenho para o espaço. Estruturas metálicas, sombras e linhas projetadas criam arquiteturas delicadas nas quais vazio e matéria passam a compartilhar a mesma importância. Ao final do percurso, a instalação inédita "Corpos Sutis" (foto), da goiana Iêda Jardim, encerra a visita reunindo tecidos, porcelanas, bordados e fotografias familiares em uma obra que investiga ancestralidade, continuidade e memória coletiva partindo de uma experiência particular.

Embora utilizem linguagens distintas, os seis artistas compartilham uma mesma compreensão da matéria como portadora de experiências invisíveis. Tecidos guardam lembranças, mapas registram deslocamentos, linhas conectam tempos distintos, enquanto objetos cotidianos passam a revelar histórias que unem gerações.


Serviço:

Exposição Poéticas da Memória e da Matéria na 16ª Bienal Internacional de Curitiba – Limiares

Torre – Museu Oscar Niemeyer (Rua Marechal Hermes, 999 – Centro Cívico)

Ate 15 de novembro.

Visitação: terça-feira a domingo, das 10h às 17h30

Ingressos: R$ 36 (inteira) e R$ 18 (meia-entrada); gratuito às quartas-feiras e todos os últimos domingos de cada mês


Crédito da foto: Heloisa Bortz