As estruturas que organizam a vida contemporânea raramente são visíveis. Algoritmos decidem o que consumimos. Mercados financeiros movem economias inteiras em frações de segundo. Sistemas de inteligência artificial reorganizam relações de trabalho, comunicação e poder. Ao mesmo tempo, cresce a sensação de que compreendemos cada vez menos o funcionamento do mundo que nós mesmos construímos.
É nesse mar de incertezas que o artista espanhol Max de Esteban percorre em Cartografía Provisória, exposição apresentada na Sala 9 do MAC Paraná no Museu Oscar Niemeyer, como parte da 16ª Bienal Internacional de Curitiba – Limiares.
Com curadoria de Adriana Almada e do curador convidado Ferran Barenblit, a mostra reúne fotografias, instalações e nove videoinstalações produzidas ao longo da última década, consolidando uma pesquisa artística que tornou Esteban uma das vozes mais relevantes da arte contemporânea europeia quando o assunto é tecnologia, economia e transformação social.
"É a primeira vez que exponho no Brasil e estou muito feliz de estar aqui. A exposição trata das estruturas do capitalismo contemporâneo, de questões como inteligência artificial, desigualdade e economia. São fotografias, instalações e nove vídeos que abordam alguns dos grandes dilemas que enfrentamos para o futuro", afirma o artista.
Nascido em Barcelona (Espanha), Esteban é doutor em Economia e Negócios, mestre em Engenharia e ex-bolsista da rede Fulbright. Sua formação acadêmica não aparece como ilustração da obra, mas como parte do próprio processo artístico. Cada trabalho nasce de uma investigação rigorosa sobre as infraestruturas que sustentam o capitalismo global, os sistemas tecnológicos e os mecanismos de poder que moldam a experiência contemporânea.
Ao longo de sua trajetória, suas obras foram apresentadas em instituições como o Kunstpalast, de Düsseldorf, o Jeu de Paume, em Paris, o Museum of Fine Arts, de Houston, o Deutsches Technikmuseum, de Berlim, o Red Brick Art Museum, em Pequim, e o MACBA, de Barcelona, além de bienais internacionais como Havana, Yokohama, Cairo, Cuenca e BienalSur.
Apesar da aparência documental de muitas de suas imagens, nada do que o visitante encontra na exposição corresponde literalmente ao real. A ficção funciona como um método de investigação. Ao deslocar fatos, imagens e narrativas, o artista cria situações que parecem familiares, mas que aos poucos revelam fissuras capazes de colocar em dúvida as certezas que organizam nossa percepção do presente.
Segundo Barenblit, a exposição percorre uma década de produção dedicada a compreender como determinados sistemas sustentam a organização econômica, política e simbólica do mundo contemporâneo. "A estética da extinção que atravessa seu trabalho questiona os processos de desaparecimento, transformação e obsolescência que afetam tanto as estruturas materiais quanto os sistemas ideológicos da modernidade", diz o curador.
Essa investigação alcança temas como inteligência artificial, engenharia genética, biopolítica, mercado financeiro, vigilância, evasão fiscal, concentração de riqueza, guerras tecnológicas e crise ambiental. Além de denunciar essas estruturas, o artista procura compreender como elas reorganizam a própria ideia de humanidade.
Para Almada, que divide a proposta curatorial Limiares com Tereza de Arruda, a exposição constitui uma cartografia do presente. "Max de Esteban conseguiu traçar uma rigorosa cartografia do nosso tempo. Ela registra as tecnologias do poder, os artifícios da política, as variantes do tecnocapitalismo, a inteligência artificial, as profundas desigualdades sociais e, em meio a tudo isso, o lugar da arte, da sensibilidade e dos afetos."
Embora o percurso seja atravessado por questões complexas, Cartografía Provisória não oferece respostas definitivas. Como sugere seu próprio título, trata-se de um mapa sempre incompleto, provisório, construído em um mundo em constante transformação.
Serviço:
Exposição Cartografía Provisória, de Max de Esteban, na 16ª Bienal Internacional de Curitiba – Limiares
Sala 9 – MAC Paraná no Museu Oscar Niemeyer (Rua Marechal Hermes, 999 – Centro Cívico)
Até 15 de novembro.
Visitação: terça-feira a domingo, das 10h às 17h30
Ingressos: R$ 36 (inteira) e R$ 18 (meia-entrada); gratuito às quartas-feiras e todos os últimos domingos de cada mês
Crédito da foto: Amabili Gomes

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