A partir desta quinta-feira (5), a artista Patricia Cipriano faz curta temporada da peça O Coração da Boca É a Língua no Teatro Novelas Curitibanas – Claudete Pereira Jorge. O trabalho parte de sua trajetória pessoal para colocar em cena questões sobre violência, memória, desejo e cuidado. Com dramaturgia e performance da própria artista, o espetáculo segue até 15 de novembro, com apresentações de quinta-feira a domingo, sempre às 20 horas, com entrada gratuita.
A montagem nasceu da pesquisa de Cipriano sobre arte e dramaturgia sapatão. A partir da percepção da artista sobre a pouca presença de produções teatrais que coloquem experiências lésbicas no centro da cena, a peça transforma vivências pessoais em material cênico, articulando autoficção e sonho como procedimentos para elaborar essas experiências.
Em cena, uma mulher descobre que é um bisonte ferido. Por meio de uma sucessão de sonhos e pesadelos, revisita histórias ligadas à descoberta de sua sexualidade e ao medo de viver o próprio desejo. A narrativa recupera lembranças de um amor na adolescência e o temor de decepcionar as pessoas que ama.
A história de quase extinção dos bisontes funciona como analogia às perseguições, às tentativas de apagamento e à resistência das comunidades lésbicas. Na dramaturgia, a manada representa a possibilidade de superar a sobrevivência solitária por meio do encontro com outras lésbicas, com quem a personagem estabelece relações de pertencimento e cuidado.
Para Cipriano, a construção de uma memória lésbica passa pelo encontro entre experiências individuais e coletivas. “Sempre me perguntei como fazer com que uma experiência pessoal, que pertence a um corpo só, possa produzir outras possibilidades de existir a partir do encontro. Já precisei fugir muito e não acho que fui a única. Por isso, também me pergunto: como sair da lógica da fuga e entrar na experiência concreta do cuidado? Cuidar nunca é uma ação neutra, requer envolvimento”, afirma. “Por isso, os bisontes me fascinam. Sabe o que tem de mais bonito nos bisontes? Quando eles se movimentam, seus corpos dispersam sementes que fertilizam o solo. Acho que é isso que a gente faz quando vive em bando”, completa a artista.
A conversa proposta pelo espetáculo se estende para além da cena. Ao fim de cada apresentação da temporada, o público poderá participar de um bate-papo sobre as questões atravessadas pela obra.
O projeto é realizado com recursos do Programa de Apoio, Fomento e Incentivo à Cultura de Curitiba da Fundação Cultural de Curitiba/Prefeitura Municipal de Curitiba.
Serviço:
O Coração da Boca É a Língua
Teatro Novelas Curitibanas – Claudete Pereira Jorge (Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1.222 – São Francisco)
De 5 a 15 de novembro; quinta-feira a domingo, sempre às 20h; dia 12 de novembro com tradução em Libras; bate-papo após todas as sessões.
Classificação indicativa: 18 anos
Entrada gratuita, com ingressos distribuídos uma hora antes de cada apresentação.
Crédito da foto: Virginia Benevenuto
