Lançada em 1971, a obra As Veias Abertas da América Latina, do escritor uruguaio Eduardo Galeano, se tornou rapidamente um clássico, leitura obrigatória para toda a esquerda do continente. O impacto pode ser medido pelo fato de o livro – que mistura história, economia e política em um ensaio sobre as tragédias e percalços deste quadrante do mundo, uma análise baseada principalmente nos abusos e extorsões sofridos desde o descobrimento – ter sido proibido por todas as ditaduras militares do Cone Sul. Mesmo assim, em 2009, ele chegou às mãos do então presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, presente de Hugo Chávez durante uma Cúpula das Américas.
Na Mostra Lucia Camargo da 34ª edição do Festival de Curitiba, essa espécie de enciclopédia do pensamento progressista inspira a peça Veias Abertas 60 30 15 Seg, produzida pela companhia teatral Aquela Cia e pelo grupo Corpo Rastreado. A montagem é dirigida por Marco André Nunes, com texto de Pedro Kosovski e Carolina Lavigne. O elenco conta com Carolina Virgüez, Matheus Macena e Rafael Bacelar. As sessões acontecem nos dias 10 e 11 de abril, sempre às 20h30, no Sesc da Esquina.
No espetáculo, um funcionário da United Fruit Company, multinacional norte-americana que mandou e desmandou nas repúblicas do Caribe durante todo o século 20, se apaixona por um militar. No dia do casamento, no entanto, o exército colombiano promove o Massacre das Bananeiras, para pôr fim a uma greve dos trabalhadores da companhia, e os dois ficam em lados opostos do conflito.
Apesar do tema pesado e da sinopse dramática, a peça não tem nada de sisuda ou professoral. Pra começar, as cenas, fragmentos de no máximo um minuto que se sucedem e também podem ocupar o palco simultaneamente, se desenrolam em uma academia de dança (ao som de ritmos como salsa, bolero, mambo, samba e punta, gênero muito popular na América Central). É apenas à noite que o local se transforma em covil para reuniões subversivas.
“É uma peça bem imagética, poética mesmo. Tem um quê de melodrama também”, diz Kosovski. “O que a gente faz é conversar com o livro do Galeano, a partir de um recorte. Até porque sua escrita nesse livro é muito dura, sociológica, árida. E eu acho que a festa, a arte e a beleza são resistência”, completa.
“A gente tinha muita coisa pra falar, então estávamos buscando um formato ágil, e chegamos nas cenas de no máximo um minuto. Só depois fomos nos dar conta de que esse modelo é também a sintaxe das redes sociais hoje”, revela Nunes. “Tudo com muita dança, latinidade, molejo”, continua.
A narrativa ainda é permeada por “Tudo Passará”, maior sucesso do cantor Nelson Ned, o “pequeno gigante da canção”, quase sempre ignorado no Brasil, mas que arrastava multidões pela América Latina, cantando para estádios inteiros em países como México e Colômbia.
No momento em que o debate sobre o Brasil ser ou não um país latino-americano foi reaceso, a peça pretende levar a discussão além. “Não tenho dúvida de que a gente sempre esteve muito mais voltado pro Atlântico, pra Europa e até pra África, do que pra dentro, para os Andes, mas se você perguntar pro Departamento de Estado norte-americano, é tudo América Latina. Só não é latino quem não quer”, afirma Kosovski. “Mas do ponto de vista histórico, falar em América Latina também é problemático, um marcador colonial. Os povos que viviam aqui não se reconheciam assim. Nada é uma coisa só”, conclui.
Serviço:
Veias Abertas 60 30 15 Seg – Mostra Lucia Camargo
Teatro Sesc da Esquina (Rua Visc. do Rio Branco, 969 – Mercês)
Dias 10 a 11 de abril, sempre às 20h30.
Classificação indicativa: 16 anos
Duração: 60 min
34º Festival de Curitiba
De 30 de março até 12 de abril.
Ingressos: www.festivaldecuritiba.com.br e na bilheteria física exclusiva no Shopping Mueller (ao lado da entrada da Rua Mateus Leme; segunda-feira a sábado, das 10h às 22h; domingos e feriados, das 14h às 20h).
Valores:
Mostra Lucia Camargo – a partir de R$ 42,50 + taxas
Risorama – a partir de R$ 42,50 + taxas
Fringe – de gratuitos até R$ 75 + taxas
Mostra Surda de Teatro – gratuita
MishMash – a partir de R$ 30 + taxas
Programa Guritiba – de gratuitos até R$ 60 + taxas
Gastronomix – a partir de R$ 10 + taxas
*Estudantes de teatro e artistas profissionais contam com ingressos promocionais de R$ 40 e R$ 20, somente na bilheteria física. Verifique as condições especiais para colaboradores de empresas apoiadoras e clubes de descontos.
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Crédito da foto: Aquela Cia

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