Conclave traz os bastidores da escolha de um papa – FILMES, por Rudney Flores

 


A temporada de estreias de filmes candidatos a indicações ao Oscar segue nesta quinta-feira (23) com o lançamento de Conclave, novo trabalho do diretor alemão Edward Berger, responsável pela nova versão de Nada de Novo Front, produção vencedora de quatro Oscars em 2023.

O filme adapta a obra homônima do escritor Robert Harris, apresentada em 2016 e que traz à tona um tema que é de curiosidade de boa parte dos católicos: como são os bastidores da escolha de um papa? Berger se aprofunda na questão e realiza um thriller político habilidoso e instigante, que prende a atenção do espectador.

Na história fictícia, após a morte do papa, o decano cardeal Lawrence (Ralph Fiennes, de O Jardineiro Fiel) é incumbido de comandar o conclave que irá escolher o novo pontífice. O Vaticano se fecha para tudo e os mais de cem cardeais são separados do resto do mundo, sem qualquer tipo de comunicação, para realizar a eleição. O vencedor precisa ter dois terços dos votos, e os escrutínios vão se sucedendo até se chegar a esse número – enquanto não é definido o selecionado, a famosa fumaça preta sai pela chaminé do Vaticano para indicar aos católicos que não há ainda definição; a fumaça branca revela o habemus papa (temos um papa).

Pelas regras da Igreja Católica, qualquer um deles pode ser votado e escolhido. Mas alguns favoritos despontam e um intricado jogo de xadrez tem início. Há o cardeal Bellini (Stanley Tucci, de O Diabo Veste Prada), o favorito do próprio Lawrence e dos progressistas. Os conservadores têm como opção o irascível cardeal Tedesco (Sergio Castellitto, de Simplesmente Martha) e o duvidoso americano Tremblay (John Lithgow, de Interestelar). E há ainda o cardeal Adeyemi (Lucian Msamati), que poderia ser o primeiro papa negro, mas que está em um espectro tão ou mais à direita que os conservadores. A surpresa é Benitez (Carlos Diehz), um mexicano que atuou em diversos locais em situações extremas, e que foi alçado a cardeal em uma das últimas medidas do papa morto.

Semelhante a qualquer grande pleito no mundo, o processo envolve muitas mentiras, conchavos, artimanhas e traições. O cardeal Lawrence tenta ser equilibrado, mas novas informações vão aparecendo, tornando tudo muito complicado e obrigando-o a tomar determinadas atitudes. Tanto o autor Harris como o diretor Berger tiveram consultoria de especialistas no Vaticano para as situações mais espinhosas, na intenção de tornar a trama o mais verossímil possível.

Diversas questões estão colocadas na mesma na eleição, como a maior presença das mulheres na igreja, o apelo a uma igreja mais aberta, respeitando mais a diversidade do mundo atual, e o principal, a oposição entre extremistas e progressistas, refletindo o principal embate político dos dias de hoje em todos os grandes países. É uma preocupação da vida real com a sucessão do Papa Francisco, considerado mais próximo do espectro progressista, que já tem 88 anos e está há quase 12 anos à frente do Vaticano.

As primeiras qualidades de Conclave estão no desempenho do incrível elenco, com destaque para os sempre competentes Fiennes e Tucci – também se destacam Castelitto e Isabella Rossellini, em uma participação especial como a Irmã Agnes, crucial em uma revelação em um momento-chave da história. A parte técnica também chama a atenção, com ótimo trabalho de fotografia – um belo exemplo é a sequência filmada de cima mostrando os cardeais andando pelo pátio com guarda-chuvas brancos.

O clima de suspense funciona muito bem, instigando a audiência. Conclave traz ainda um final surpreendente, em certo aspecto muito provocativo e que certamente mexerá com o espectador, seja católico ou não. 

Nesta quinta-feira, Conclave foi indicado a oito Oscars: melhor filme, ator (Ralph Fiennes), atriz coadjuvante (Isabella Rossellini), roteiro adaptado, edição, figurino, design de produção e trilha sonora. Cotação: Ótimo.

 

Trailer de Conclave:

 


 

Crédito da foto: Antonello/Divulgação Diamond Films