O centro de tudo está a garota de programa Anora (Mickey
Madison, de Pânico 5 e Era Uma Vez... em Hollywood), que prefere ser chamada de
Ani. Em uma noite de trabalho como dançarina em uma boate nova-iorquina, seu
emprego principal, ela é indicada para a se juntar a alguns russos
endinheirados em busca de diversão. Com ascendência russa, ela é única do local
a falar a língua dos clientes.
A moça ganha a atenção do jovem Ivan (Mark Eydelshteyn) e
dias depois aceita atendê-lo em sua mansão. A relação esquenta com o rapaz
inconsequente e fútil, um filho mimado de um oligarca russo, que passa os dias
a jogar videogames e a ir a baladas com os amigos. Ao estilo Uma
Linda Mulher, ele resolve pagar para uma boa grana para que Ani fique
exclusivamente com ele durante um tempo.
A trupe do rapaz decide viajar para Las Vegas e o que era
apenas um namoro pago transforma-se em um casamento dos sonhos para Anora, que
pensa ter achado seu bilhete premiado. Mas os "cuidadores" e os pais
do marido não concordam em nada com essa ideia e é aí que as confusões começam
a aparecer na trama.
O destaque de Anora é a atuação solar de Mikey Madison, que
atrai, desde o início, a atenção e o carinho do espectador. A personagem criada
pelo diretor, também roteirista da produção, é uma mistura de ingenuidade,
sensualidade, esperteza, intensidade, fúria e fragilidade, nuances bem
trabalhadas pela atriz, que tem a chance de mostrar todo o seu carisma em seu primeiro
grande trabalho como protagonista. O restante do elenco, todos rostos praticamente
desconhecidos, também tem boa contribuição, com foco no trio de capangas
responsável por algumas cenas hilárias do filme.
Dos três, que tem papel mais relevante é Igor (o russo Yura
Borisov), principalmente no último arco do filme, no qual Baker mostra suas
reais intenções. Muito além da mistura de contos de fada e comédia apresentada
até a metade do filme, o cineasta passa a falar sobre poder e diferenças
sociais, e da impossibilidade de mundos muito diferentes se unirem, mesmo que a
maioria das chamadas rom-coms (as comédias românticas) tentem dizem quase
sempre o contrário. Apesar de lutar muito, Ani vai aos poucos caindo na realidade
das coisas, até chegar na bela cena final, que descarrega todo o drama da
história.
É esse desfecho que talvez tenha conquistado o júri de Cannes, pois, à primeira vista, Anora não é daquelas obras impactantes que geralmente são vencedoras dos grandes festivais internacionais. Mas é nesse momento que Baker mostra novamente a sensibilidade presente no belo Projeto Flórida, fazendo Anora valer realmente a pena.
Nesta quinta-feira, Anora foi indicado a seis Oscars: melhor filme, diretor, atriz (Mikey Madison), ator coadjuvante (Yuri Borisov), roteiro original e edição. Cotação:
Ótimo.
Trailer de Anora:
Crédito da Foto: Divulgação Universal Pictures Brasil

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